E nas paredes cruas da cidade semearam-se poemas
na frágil esperança de que nascesse bom fruto
borrões de sabedoria aplicados fugidiamente
que procuraram aliviar o eterno abandono das artes
O meu agradecimento aos autores.
Fui ver o mar chegar
mas ele atrasou-se
e eu fiquei espantado a olhar
para a bagagem de ondas que ele trouxe.
O que é que eu sei sobre ser-se um rei?
Prefiro os intervalos da chuva por onde
tranquilo passo
do que o agitado paço dum palácio.
Prefiro a sabedoria de uma flor
ao saber
intencionado de um tutor.
Prefiro
ao iate, o cacilheiro
o fadista ao motorista,
a cama à fama,
o amigo ao assessor,
ao interesse, o amor...
Ah! Mas que sei eu sobre ser-se um rei?
Estar sentado num trono,
seja de barro ou de ouro
e que já teve outro dono
é para mim seguramente
a profissão mais inquietante
que um homem pode ter.
Usar de modos e trejeitos
etiquetas e preceitos
protocolos e destinos
por mais certos e escorreitos
serão sempre vidas para outros.
E eu, que nada sei sobre ser-se um rei,
talvez algum dia ainda brincarei
com um deles na minha poesia.
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