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Viagem no vento

por poesianunorita, em 06.06.07

 

 

Em silêncio,

esperando pela porta fechada

que abrirá os braços para os receber,

aguardam pela passagem de um vento tubular

que os levará para onde não querem ir.

 

Estes olhos, conformados, realistas,

desistiram de sonhar os sonhos da infância

onde eles se perdiam no imenso mar da imaginação,

em que a alma navegava de ilha em ilha,

procurando os segredos particulares

que cada uma delas guardava

nos tesouros enterrados pelos piratas do sentir.

 

Em cada tesouro havia sempre um mundo novo

pleno de cores e de cheiros desconhecidos,

 habitado por gente que era bonita e interessante

 e de onde não apetecia sair nunca.

 

Por lá encontraram estes olhos outros olhos,

que procuravam olhos amigos para partilhar

estes mundos novos e alegres.

 

E naquele momento, o mundo foi feliz.

 

Mas estes olhos não estavam destinados

a ver os outros olhos a envelhecer...

 

Separaram-se encharcados nas lágrimas dos olhos

que se julgavam juntos para sempre e que sem querer

aumentaram o tamanho do mar que um dia os uniu.

 

Estes olhos juraram nunca mais esquecer os olhos que partiram...

 

Agora, estes olhos desfocados aguardam

pelo vento metálico tubular que os levará

como folhas varridas num jardim,

sem vontade de encararem outros olhos

igualmente deslavados que estão no rosto cansado

que habita o vulto imóvel à sua frente que lhe sorri.

 

Com esforço reconhecem naqueles olhos que o miram,

os olhos perdidos no antigo mar das emoções.

 

Reconhecem os contornos ovais e a cor de avelãs

torradas pelo sol do verão, reconhecem o brilho da determinação

que sempre fascinou estes olhos que olham os outros que lhe sorriem.

 

Mas estão diferentes, tais como estes olhos, os outros perderam

a inocência e a doçura que os caracterizavam tão vincadamente.

O tempo, a vida e a distância encarregaram-se de as apagar destes

olhos que se olham espantados e reencontrados.

 

Lágrimas correm destes olhos que durante muito tempo

correram como loucos procurando os olhos que agora

os foram encontrar sem que eles estivem a procurá-los.

 

Agora é tarde para voltarem a procurarem tesouros escondidos

em ilhas imaginárias, no antigo mar das brincadeiras de crianças.

 

O mar já não separa os olhos que sempre se quiseram encontrar...

 

Esse mar já não existe...

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publicado às 16:02



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