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vizinho das nuvens

ENTRA E BEBE UM CAFÉ DE POESIA

vizinho das nuvens

ENTRA E BEBE UM CAFÉ DE POESIA

Subúrbios

Junho 02, 2007

poesianunorita

Ao levantar-se, ainda o sol descansa e não raiou.

Acorda já cansada pela breve noite que passou.

 

Abandona relutante o lençol ainda morno.

Esfrega as mãos na cara para afastar o sono.

 

O tempo foge-lhe como água por entre os dedos.

Utiliza para o prolongar alguns truques e segredos.

 

Sem tempo para si, prepara os filhos para a escola.

Acorda-os, dá-lhes de comer, arruma-lhes a sacola.

 

O mais velho já tem idade para poder ir sozinho.

A escola é perto, a viagem é curta e é bom o caminho.

 

O mais novo vai com a mãe para o infantário.

Apanham uma boleia com o pai que é bancário.

 

Dá um beijo ao miúdo, cumprimenta a educadora

(ela em pequena tinha o sonho de ser professora).

 

Corre para o comboio que não espera na estação.

Junta-se aos rostos do costume, à imensa multidão.

 

Viaja de pé, apertada, quase sem poder respirar,

e por breves momentos ela sonha com o mar.

 

Chega ao destino com tempo para um café

engolido rapidamente ao balcão e em pé.

 

Entra ao serviço, já tem clientes à espera,

Entrega-se ao trabalho com ganas de fera.

 

Arranja unhas, lava cabeças, faz depilações,

é assim que lentamente amealha os tostões.

 

Almoça no Salão, frugalmente e num instante,

aprecia o que faz, tem espírito de comerciante.

 

Atende mais clientes, fica para além da sua hora.

Precisa do dinheiro que a hipoteca devora.

 

Fecha a loja a correr, está na hora de regressar.

Dói–lhe a cabeça, está cansada demais para pensar.

 

Encosta-se ao vidro, fecha os olhos dormentes.

Ninguém repara nela, todos estão ausentes.

 

Quando chega a casa já as crianças jantaram.

Estão a fazer os trabalhos que da escola mandaram.

 

Cumprimenta o marido e vai para a cozinha.

Come o jantar requentado, na mesa, sozinha.

 

Observa as imagens longínquas na televisão.

Resmunga com os catraios por causa da confusão.

 

Pensa na ultima vez que foi ao cinema.

Não se lembra do filme nem sequer do tema.

 

Pergunta ao marido – “Porque não vamos passear

neste fim-de-semana? Apetece-me ver o mar.”

 

“Este fim-de-semana não vai dar, não pode ser.

São os anos da minha mãe, não nos podemos esquecer.”

 

Responde-lhe o marido a guardar o jornal.

“Compras-lhe uma prenda que não seja banal?”

 

A arrumar o prato, irrita-se com a resposta.

“Achas que eu tenho tempo para essa proposta!?”

 

Controla-se para não aumentar a discussão.

Está cansada demais para bater nesta questão.

 

Começa a adiantar o jantar de amanhã.

O mais pequeno vem pedir um beijo à mamã.

 

Tem um monte de roupa para engomar,

e outro monte ainda maior para lavar.

 

O marido vai pôr os miúdos a dormir

Fazem uma algazarra e começam a rir.

 

Sem paciência reclama do barulho.

As gargalhadas ferem-lhe o orgulho.

 

Termina o trabalho já a noite vai alta.

O marido ressona, nem sentiu a sua falta.

 

Há vários meses que não fazem amor

e quando o faziam era quase por favor.

 

Já se esqueceu como é ser-se sensual.

Mira-se ao espelho enquanto tira o avental.

 

Adormece estafada mas tem pouco tempo,

para ela dormir é um mero passatempo.

  

Amanhã repetir-se-á esta rotina enfadonha,

e ela vai sobrevivendo nesta vida medonha.

 

As lágrimas que agora costuma chorar

rolam tristes para um profundo e triste mar.

 

Afoga-se num peso que não é da sua idade.

Do seu tempo de menina ela sente saudade.

 

A vida devora-a com o seu desdém...

É uma trabalhadora, uma mulher e uma mãe.

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